Assim como outros filmes do diretor Michael Haneke, é um filme duro de se assistir, e logo no início do filme já sabemos que não veremos um "final feliz". O amor aqui não se trata de declarações melosas, é outra coisa. E gosto muito desse outro olhar, filmes de romances "cor-de-rosa" (casais bonitinhos, histórias que só acontecem em filmes) são chatos e muitas vezes irreais; o interessante é olharmos para outras manifestações desse sentimento tão desejado e falado por todos.
O filme
se passa quase que totalmente num apartamento e centraliza no casal. As
atuações dos dois estão incríveis! O olhar vazio e perdido de Anne é
impressionante.
O filme trata de um casal de idosos por volta dos seus 80 anos que vive confortavelmente num apartamento em Paris. Anne sofre um derrame e o seu marido George é quem assume os cuidados e precisa readaptar a vida dos dois, pois aos poucos, Anne fica mais decrépita: fica paralisada de um lado do corpo, tem lapsos de memória, e por fim, já não consegue articular uma frase. Se torna totalmente depende, até das necessidades mais elementares, dos auxílios de George. A filha do casal é ausente e distante.
O filma narra fria e lentamente como a vida desse casal vai se tornando, e deixa claro como há amor e cuidado entre ambos.
(Daqui para baixo têm pequenos spoilers...)
George é extremamente calmo e paciente, cuida de Anne, apesar dos impropérios ditos por ela e uma única vez perde a paciência... e se lamenta depois. Ainda que seja uma atitude condenável, fico imaginando o quanto aquela agressão feriu o próprio George... Ele se encontrava numa situação-limite, sozinho, amava Anne e mesmo assim foi capaz de agredí-la.
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| Anne era professora de piano |
O filme mostra as agruras da doença, as preocupações que cercam a vida das pessoas envolvidas com o adoecimento, as mudanças radicais no cotidiano, o distanciamento das pessoas (quando o aluno de Anne lhes envia uma carta dizendo estar muito triste com a situação dela e visivelmente Anne se decepciona com essa atitude; a filha que os visita com pouca frequência e não se envolve muito), pessoas que se aproximam (os vizinhos que ajudam nas compras e na limpeza do apartamento), o desconhecido (George não sabe o quê fazer em muitas situações), é uma jornada solitária...
A carta que George escreve, embora não se saiba para quem é endereçada, para mim, ele escreve para Anne, na sua incapacidade de falar e raciocinar e na sua despersonalização, George ainda conversa com Anne, nem que seja por carta. Ele ainda consegue conservar a imagem e a pessoa que Anne era antes da doença.
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| a filha do casal , Eva, e George |
Por fim, é um filme que nos faz pensar na finitude da vida, na velhice, no adoecimento, na morte e no amor que perdura a isso tudo. Diante desse contexto de terminalidade da vida e do sofrimento, o filme quebra um paradigma e deixa uma pergunta inquietante: a morte é um acontecimento necessariamente terrível ou poderia se tornar um ato de amor?
O filme parece apontar para a segunda hipótese, e nos mostra isso com uma certa dose de frieza e sensibilidade.
Nota: 9.





