sexta-feira, 21 de março de 2014

Her (Ela)

Pôster emblemático! Diz muito do filme.
O filme retrata uma nova configuração de amor onde o protagonista (Theodore) se apaixona por um sistema operacional (Samantha - voz de Scarlett Johansson), e ela por ele. Para mim foi difícil admitir que essa relação seria possível e que, de fato, fosse legítimo, porque para mim, essa não é uma forma de relação, é no fundo um encapsulamento de si, é solidão. No entanto, não é isso que o diretor se ocupa, ele explora essa relação que dá certo!




O filme parece se passar num futuro, porém, nada de carros voadores e roupas esquisitas, é tudo muito parecido com o nosso tempo, só a tecnologia e alguns serviços mais "avançados" que se diferenciam, aliás, as roupas e o bigode de Theodore são vintage total. rs! É legal fazer a observação "desse mundo": as cidades são comuns, com seus arranha-céus; as pessoas individualistas, falando nos microfones acoplados aos seus fones e olhando para as telas de seus celulares (ou, sob outra perspectiva, ouvindo e olhando seus amantes/amigos); o apartamento de Theodore tem um ar clean, é amplo, com janelas imensas onde se vê as luzes da cidade, monocromático.




Theodore é um cara solitário, se separou da sua ex-esposa (mas ainda não assinou os papéis da separação oficial), trabalha numa empresa cujo objetivo é escrever cartas, mora só, joga uma espécie de vídeo-game em 3D e sonha com a ex-esposa. O trabalho de Theodore é bem curioso, ele é contratado para escrever cartas, e ele as escreve profunda e sensivelmente para pessoas ou casais que ele acompanha há anos, ele conhece bem essas pessoas.

no trabalho
Até que ele conhece esse Sistema Operacional (S.O.) que foi desenvolvido para ser uma inteligência artificial mais próxima da personalidade e sentimentos humanos. Para Theodore, ela se chama Samantha e a relação vai se aprofundando de ciúmes até um amar o outro. Não há tentativa de corporificar Samantha (obs: tem uma tentativa sim, por parte dela, mas pontual, que não foi bem sucedida), ela até hipotetiza ter um corpo, ser alguém, mas logo desiste, aquela relação dá conta de seus sentimentos, Theodore também não sente essa necessidade, em termos sexuais, os dois se dão bem. Eles viajam, saem com os amigos, tudo muito natural. Seria essa relação real? Não acho que o diretor tenha tido essa preocupação, é real porque os dois vivem as emoções e as preocupações que qualquer relacionamento amoroso provoca e ponto.




Samantha, é um personagem incrível também, sua voz é a personagem na verdade; ela vai se desenvolvendo e se tornando um S.O. cada vez mais desenvolvido e autônomo. Por um lado, essa autonomia promove coisas maravilhosas para os dois e para Theodore, mas, por outro lado, acarreta problemas...



Fato é que, superando qualquer preconceito, esse amor amadurece os dois, ensina muito aos dois.
Obs: acontece uma cena muito interessante no filme. Theodore tem um encontro (arranjado) com uma moça, ela muito atraente e bacana, o encontro sai super bem, mas ele titubeia... parece demonstrar dúvidas se quer continuar com aquilo... Seria o relacionamento "virtual" mais interessante? Seria o fantasma da ex povoando seus sonhos? Aliás, Theodore, só sonha com a ex, não tenta personalizar Samantha... Interessante, não? Theodore não consegue assinar os papéis do divórcio, mas parece preferir Samantha que é um S.O.... Assumir relações intensas e próximas não é facil... Para mim, Theodore é um romântico, sensível e solitário.



O cartaz do filme e o título são emblemáticos e geniais.
O cartaz mostra cores quentes e intensas, estereótipo de "paixão", mas o rosto dele demonstra algo de sofrido, de incômodo.
Embora eu não seja versada no idioma inglês, o pronome "her" nunca é sujeito, é sempre um pronome que se refere a alguém feminino.
Acho que são dados de análise que dizem alguma coisa sobre o filme: Samantha não é sujeito dessa história, ainda que fosse um S.O. brilhante... E Theodore, solitário que é, talvez não tenha ficado satisfeito com o desfecho da história.

As atuações são incríveis! Joaquin Phoenix está excelente! A voz de Samantha é sensacional, talvez esse filme dublado em outra língua perca muito.

Nota: 10.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Manderlay



"A bondade é ingênua".


É essa a conclusão que eu cheguei depois de ter visto o filme. A bondade e o senso de justiça não são suficientes para darem conta da complexidade da vida...

Nota: 6,5.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Ninfomaníaca, vol. I (Nymphomaniac: volume I)


Não considero que Ninfomaníaca seja um filme classificado como "erótico", o sexo que aparece no filme é a demonstração da mais profunda tristeza e vazio, porque na tentativa de sentir alguma coisa, a protagonista busca incessantemente o prazer (no caso, o sexual), para no final sentir nada, só mais vazio. Nesse sentido, Ninfomaníaca lembra outro filme que aborda a compulsão sexual, Shame.

A protagonista, Joe, é encontrada desmaiada no chão da rua e Seligman, o senhor que a acude, a leva para a sua casa e ouve suas desventuras sexuais ao longo de sua juventude. Essa é a sinopse do volume I, apenas.

Joe adulta e Seligman - ela contando sua história para ele

Lars von Trier tem uma narrativa excêntrica - há humor, inclusive em cenas pesadas e humilhantes (como a cena com a Uma Thurman por exemplo), onde não teria absolutamente nada de engraçado, ele faz parecer enfadonho e patético; há comparações inusitadas entre a compulsão de Joe e, pasmem, a pescaria, Bach e a sequência de Fibonacci. É muito interessante. De um lado, Seligman, um senhor, fala da pescaria, enquanto Joe narra como ela fazia para escolher os parceiros sexuais no trem, e Seligman "amarrava" uma coisa na outra. Não sei vocês, mas me pareceu que o tempo todo, Seligman tentava dizer que aquela vida de Joe não tinha nada demais. Parecia haver uma mistura de erudito com o mundano, do culto com vulgaridade.

Uma das comparações. Aqui há a comparação entre uma obra de Bach e três amantes de Joe

Uma coisa que me chamou atenção no filme foi o lema "Esqueça o amor". Era como se Joe e suas amigas, ao transarem enlouquecidamente com qualquer um, fizessem uma resistência ao amor. Àquele amor romântico sem graça, onde as pessoas sofrem em busca do amor étereo, onde existem ciúmes, enfim, à tudo isso elas fazem frente. O interessante é que a melhor amiga de Joe (a mais louca entre elas) se apaixona...

a amiga e Joe no trem



Joe tinha uma relação muito próxima com o seu pai (para alguns, uma relação edípica! rs) e distante com a sua mãe. O pai tinha uma lado poético (a história das árvores e as folhas), os passeios pelo parque com a menina, a atenção prestada. Quando o pai dela adoece, Joe acompanha o pai no hospital até à sua morte. Quando ela o vê morto no leito, se excita. E transa com alguém no hospital. Parece que Joe, ao lidar com o sofrimento e com a dor, vê como único escape, o sexo. Ou melhor, a maneira que Joe descobriu em lidar com o sofrimento é pelo sexo deliberado e frenético. Os instantes de gozo que sente, aliviariam sua dor, seu vazio.
Queria entender melhor essa infância da Joe. Teria havido alguma coisa que a fizesse compulsiva por sexo? Queria entender melhor o destino da relação dela com a mãe.

o pai de Joe no leito 

Durante a sua juventude, Joe transava com muitos homens e não media as consequências; lidava com os homens friamente (quer dizer, ela simulava ser uma pessoa doce, mas na verdade não sentia nada afetivamente pelas pessoas com quem se relacionava), elaborava várias estratégias na conquista, caçava com impetuosidade, se entregava ao sexo, mas permanecia insatisfeita. Assim como se relacionava facilmente, se distanciava com a mesma facilidade. Elaborava desculpas para abandonar seus parceiros, jogava dados para decidir quem deveria dispensar, tudo sem medir esforços. Eu esperava ver muitas consequências trágicas, a mais forte foi a cena com a Uma Thurman, que é humilhante e cômica ao mesmo tempo. 



Joe conhece Jerôme na adolescência e o reencontra em outras ocasiões da sua vida, e, sem dúvida, a relação dela com ele é diferente... Estaria sentindo o famigerado "amor"? Cria-se uma grande expectativa no reencontro dos dois e, depois de um longo intervalo (é o que me pareceu), a conclusão a que se chega é que nem o "amor" é o suficiente... (se é que podemos chamar o sentimento de Joe por Jerôme de "amor", vamos aguardar o volume II para afirmar ou não isso). E saber disso é doloroso demais. É trágico.
Seria o "amor" a grande solução para o sofrimento de Joe? O que ela estaria buscando incessantemente e não encontra?
O que aconteceu ao longo de sua vida para que ela se sentisse um "ser humano mal" e sentindo-se culpada? O que ela foi capaz de fazer para (tentar) suprir  esse "não sentir nada"? 
De fato, a atriz que interpreta Joe na juventude consegue passar essa sensação de vazio: o olhar é vago, a frieza diante de situações intensas, o sexo é obsessivo, é indiferente diante do sofrimento alheio, joga com o sentimento das pessoas... é isso, nada

Jerôme
No volume I eu esperava mais sofrimento, mais loucura e mais tragédia (credo!), mas o filme se passa quando Joe ainda é jovem, ou seja, não deu tempo de acontecer as tragédias e de experimentar outras coisas que potencializassem a sensação de prazer... 
E sim, tem cenas de sexo explícito mesmo (e no Brasil, ainda foram cortadas algumas cenas!), então, se você não gostar desse tipo de coisa, não assista.


Estaria o filme propondo um novo conceito de "amor" ou a dissolução completa desse ideal? 

Acredito que o Volume II seja mais pesado e mais sofrido, Joe já estará na fase adulta e, imagino, com a vida em frangalhos. Muita expectativa!

É o filme que fecha a "Trilogia da Depressão", então, sugiro que assista os anteriores: Anticristo e Melancolia. Aviso aos desavisados, são filmes muito pesados emocionalmente!

Nota: 8,5. 

domingo, 12 de janeiro de 2014

Azul é a cor mais quente (La vie d'Adèle - chapitres 1 et 2)


Decidi ver esse filme pela polêmica que gerou e, pra começo de conversa, devo confessar que não vi polêmica nem nada demais. Vamos à prosa.

Àdele é uma jovem de 17 para 18 anos que está se descobrindo e descobrindo o mundo, tanto no que se refere aos estudos, à profissão, aos relacionamentos amorosos, às amizades, ao futuro. 
É uma menina linda que chama atenção de rapazes e moças. E ela vai experimentando... E nas experiências ela vai se conhecendo e conhecendo outras pessoas e possibilidades, umas dessas é a paixão entre ela e uma mulher mais velha, Emma, a que tem o cabelo azul.

Àdele


É bonito ver a paixão incandescente das duas: há cumplicidade, beleza e o sexo é delirante. Aí eu acho que está o centro da polêmica que abala os mais conservadores: duas mulheres e cenas de sexo, explícito, diga-se de passagem, mas nada que tenha apelo ao pornô, há história, há contexto, e o sexo nada mais é que uma peça importante da relação das duas.

Emma está finalizando os estudos em Belas Artes e Àdele terminando o curso de Literatura e quer ser professora primária, até Sartre aparece numa das conversas entre elas.
Os personagens são maduros, apesar de jovens de idade, são sinceros, tomam a iniciativa, são mais liberais e sem medo.



O filme não tem nada de extraordinário em seu enredo, nos mostra a vida de uma adolescente que vai descobrindo o mundo e a si mesmo. Mostra suas dúvidas, conflitos, paixões, desapontamentos, arrependimentos. A vida como ela é.
Inclusive os dilemas e os conflitos de se relacionar com outra mulher, acontecem confusões na escola e mentira para os pais. Quem nunca viveu isso?



A interpretação das duas atrizes que fazem as protagonistas é formidável! Tocante, intensas e vivas. Excelente! Há simplicidade no ar, sem efeitos especiais, mega produção ou maquiagem excessiva, as mulheres mostram seus rostos e seus corpos da maneira como são, e são belos. É muito tocante vê-las trocando olhares, e Àdele olha, observa, tem um ar ingênuo e curioso. Emma e Àdele são apaixonantes!
A cena da briga e a do bar, ao final, são impecáveis! Dá pra sentir a dor, a frustração das personagens.
Ah, e é um filme bem longo, quase 3h!

Emma

Àdele

Azul é a cor mais quente é isso: volúpia, lágrimas, prazeres, perdas, liberdade. Isso é a vida de todos nós.

Nota: 7.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Ferrugem e osso (De rouille e d'os)



Ferrugem e Osso é um filme que conta o romance de um casal e as crueldades cotidianas, tanto as impostas pela vida, como aquelas impostas pelos próprios personagens aos outros ou a si mesmos.

Stéphanie é uma treinadora de orcas num parque aquático e Ali é um homem que vai com seu filho morar na casa da irmã. Os dois se conhecem numa boate onde ele é o segurança e ela se envolve numa briga. Acontece um grave acidente e Stéphanie perde as duas pernas, da altura do joelho pra baixo (isso não é spoiler!) e precisa se readaptar à sua nova realidade, enquanto isso, Ali passa por empregos "duvidosos" e vive em conflito com o filho e com a irmã.


à direita, a irmã e o filho de Ali
Ali é insensível, um tanto rude, maltrata o filho; trabalha para ter dinheiro (não se importa com a natureza do trabalho) e se envolve com mulheres por sexo apenas. Ali, mesmo sendo assim, é aquele que traz uma nova luz à Stéphanie, e ela, na sua tristeza, é um suporte para Ali (vide a cena da luta em que ela sai da van e vai ver de perto). Por fim, começa a trabalhar como lutador em lutas vale-tudo clandestinas e fica obcecado com a nova forma de renda, nessa altura, ele e Stéphanie se aproximam, ele a leva para nadar e fazer pequenos passeios.




O bacana desse filme é a relação dura dos corpos com as crueldades da vida dos personagens. Há cenas violentas como nas lutas, a amputação de Stéphanie, o desespero de Ali no gelo para resgatar seu filho (inclusive, que cena! Talvez, aí seja o único momento que Ali "desaba"), onde a dor, o sangue, o impacto na carne não fazem muita diferença e, ao mesmo tempo, fazem parte da vida.


Destaque para a atuação dos atores, excelente!
O efeito especial nas pernas amputadas é perfeito, fiquei em dúvida se seria real ou não (embora nunca tivesse ouvido falar que a atriz Marion Cotillard não tivesse as pernas. É porque tem um filme "Sinais Vitais" onde a atriz não tem as pernas mesmo).


Uma cena que me chamou atenção foi a de Stéphanie voltando ao aquário e se encontrando com uma das orcas e se comunicam pelo vidro. Lindo e sensível.



Será que as tatuagens que ela faz nas pernas (ela tatua "esquerda" e "direita") fazem referência às lutas de Ali?

Fiquei pensando muito no título. Talvez o "osso" representasse aquilo que é corporal e "ferrugem" a degradação desse orgânico. De certa forma, os personagens vivem essa metáfora.

Nota: 9.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Elena


Elena é um documentário brasileiro de 2012 que fala sobre suicídio e luto, mas, diferente de filmes que tratam desses assuntos e, apesar se ser um documentário (amo documentários, quis dizer que falar de suicídio nessa categoria pode ser muito duro), é poético, mas sem ser romântico. Não é uma tentativa de "morte romântica".
A forma como o documentário é rodado é bem diferente, não sei o nome técnico, mas mostra imagens soltas, não é um contínuo. Esse clipe do Moska usa essa técnica:

Petra em NY
O documentário mostra a busca da irmã de Elena, Petra (que é a diretora e a atriz do documentário), em busca da irmã. Ela está em Nova York, cidade onde passou parte da sua infância e onde Elena se lançou para uma nova carreira de atriz na juventude.

As imagens as quais me referi acima são recortes de filmagens que Elena fez desde quando ganhou uma filmadora, na década de 80 eu acho, e imagens que Petra faz na NY atual. Tem as palavras da mãe das duas, o apartamento onde moraram, as ruas, as luzes, as gravações de áudios de Elena (que substituía as cartas por áudios). Petra parece trilhar os mesmos passos da irmã: se identifica com os diários dela, se identifica com a tristeza que a irmã sentia, quer ser atriz, vai estudar em NY.

fragmento do diário de Elena

Petra é o bebê e Elena


Ao final (sem ser um spoiler), Petra encontra a irmã, se reinventa e cria novos caminhos, à luz do que a irmã significou para ela.

atuação de Elena no teatro
mãe de Elena e Petra
É um documentário muito bonito. No início, pode parecer estranho, porque não se vale de contar uma história linear, com a câmera acompanhando os personagens; é outra coisa, são imagens, tais como se fossem o conteúdo de uma memória - sem ordem, acronológica, caótica muitas vezes - que fala de uma pessoa que morreu, o que foi a história com essa pessoa, as narrativas ouvidas, as imagens captadas (também as filmagens feitas por Elena), os recortes de jornais, enfim, uma trajetória, ainda que muito curta, criada por Elena, em que Petra, resgata, reconta e se reencontra.

Elena e Petra


Para mim, o luto, ou melhor, a falta de alguém que morreu, é algo que fica para sempre. É uma cicatriz simbólica, é uma marca que fica. E foi justamente essa falta e tudo que ela representa que foi referência para que Petra trilhasse seu caminho.

Nota: 9.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

A Parede (Die Wand / The Wall)


É um filme alemão de 2012 e um tanto inusitado. Tem paisagens deslumbrantes e a trilha é brilhante, salpicada ao longo do filme, não tem uma cena em que a música se estenda, é pontual. É um filme lento e silencioso.

Conta a história de uma mulher, que vai ficar na casa das montanhas com um casal, não sabemos quem eles são e qual a relação entre eles. Esse casal sai e no dia seguinte, quando a mulher acorda, não os encontra e descobre que ela está "presa" dentro de uma espécie de redoma que a impede de passar por além dos limites da parede transparente e parece que o que está "do outro lado" parou. 

aqui é uma parte da redoma. Detalhe para as paisagens!


Parece que ela vive num lugar isolado e esquecido do mundo.
Sobre a mulher não sabemos seu nome e ela praticamente não fala o filme inteiro, ouvimos a narração em "off" do diário que ela começa a escrever com papéis que encontra pela cabana.



O que me impressionou foi a personagem ser impassível e conformada à nova realidade: se adaptar para tornar suportável. Ela não se rebela, tenta se adaptar àquilo. Somente num sonho aparece ela gritando, só no sonho. Isso foi um incômodo pra mim. Numa situação-limite como essa, a loucura seria um escape privilegiado, mas a mulher simplesmente aceita aquela situação, ela tenta romper a barreira invisível algumas vezes (inclusive tenta avançar com o carro), mas nada que a fizesse desesperar. Será que o pensar constante, o amor (pelos animais) e a escrita a impediram de se entregar às fantasias e alucinações? Ou seria essa realidade uma forma de loucura?

Nessa trajetória, alguns animais a acompanham, principalmente Luchs, um cão que a acompanha em todos os lugares: nas caçadas, nas colheitas, nas caminhadas. Tem também a Bella, que é uma vaca, um bezerro, e dois gatos, além do corvo branco, mas esse com menos contato (inclusive ela faz uma reflexão muito interessante sobre o corvo).

Uma coisa interessante do filme é a relação dela com o cão. Ela mesmo fala que os dois não eram mais cão e mulher, eram uma coisa só, tamanha a relação entre eles.  Achei bonito essa noção de integração entre os seres vivos, sem distinção. A relação dela com os animais é íntima, ela trabalha duro na plantação e na caça, para se sustentar, mas também para manter os animais.




Para mim, o filme fala da solidão. E todos os acontecimentos - como a mudanças das estações, o vento, o sol, tudo - é motivo para reflexões da mulher. Filosofa sobre cada aspectos, por muitos podem ser banais, mas compunham a rotina dela: o tempo, a morte, as escolhas. Fala de como o tempo passa rápido e como se sente mover-se num tempo imóvel; como detesta matar animais; como estar fadada a fazer escolhas é algo pesado. E o quanto essas reflexões beiram a poesia em muitos momentos.

A mulher conta os dias e os meses, numa tentativa de se situar no tempo e espaço, mas talvez para tentar controlar o incontrolável, o imprevisível; também possa ser uma tentativa de afirmar que ela existe num tempo e num espaço, já que todos se esqueceram dela.


Esperei que o filme fosse ter um final dramático - já que as coisas se encaminhavam para um ápice comovente -, mas, como a protagonista anunciava ao longo do filme, nada de dramalhão ou insanidade, a mulher simplesmente aceitou o destino calada e passiva.

No cartaz em inglês, tem a seguinte frase (traduzida no Google Tradutor): "Dentro de cada um encontra-se uma verdade onde só o deserto pode revelar". Talvez a redoma invisível seja aquele espaço mais íntimo em cada um de nós que, isolado do mundo externo, podemos refletir sobre o mundo e sobre nós.

Nota: 8.