sexta-feira, 26 de julho de 2013

A pequena loja de suicídios (Le Magasin des Suicides)


Estava com muitas expectativas para esse filme, tudo me animava: o tema (não bastasse falar do suicídio, mas de uma loja para suicidas!!!) num formato de animação. Mas me frustrei... Uma pena... porque a arte da animação é bem bacana e o tema promete muito debate, e a animação permite muitas possibilidades.

A proposta do filme é a seguinte. Num lugar sombrio, as pessoas são tristes e não enxergam razão para continuarem vivas: são muitos os problemas, está tudo errado; só resta a morte. Fim de tudo. A família Tuvache tem um comércio herdado há gerações - uma loja de suicídio. Com o slogan:  "vous avez raté vous vie, réussissez votre mort...", algo como: "você fracassou na sua vida, supere na morte". Na verdade é uma loja que vende materiais para pessoas que queiram se matar, e garantem a qualidade dos produtos! São venenos, gases tóxicos, cordas, espadas, munição, insetos, ervas, etc... uma infinidade de coisas. É um negócio em que a família toda trabalha: o casal Tuvache (Michima e Lucrèce), a filha Marilyn e Vincent. O casal é simpático e atende muito bem seus clientes e pacientemente explicam os produtos em caso de dúvidas, os filhos são bem cabisbaixos... Marilyn sempre quis se matar por exemplo, mas a mãe não deixa para que ela herde a loja no futuro.



Até que nasce Alan, uma criança que sorri, fato inadmissível para os pais. Ele é alvo de constantes repreensões pelos pais. Deve se manter sério e carrancudo. Mas Alan saltita, assobia e ri, o tempo todo.
Ele então monta um plano (simples, diga-se de passagem) para reverter tal situação de tristeza generalizada. À propósito, seus pais se defrontam com o fato de que "vendem" a morte e isso os deixa abalados, mas para manterem o negócio da família, continuam.

Família Tuvache, da esquerda pra direita: Mme Lucrèce, Vincent, Alan, Marilyn e M. Michima
Coisas que não gostei: tudo bem que em animações tenha momento de musical (embora não seja uma regra), onde os personagens cantam e fazem performances, mas foi demasiado... Toda hora tinha uma musiquinha! Depois que o final foi muito decepcionante... Bonito foi que a mudança de entendimento da família se deu pelo riso de Alan, que, finalmente, os fez rir.



SPOILERS!

Ok, eles riram e conseguiram enxergar outra vida, mais colorida, mais bela, mas achei os "argumentos" fracos (se é que pode falar de argumentos, eles não "argumentaram", mas apresentaram "razões" para a vida ser colorida [em mais umas musiquinhas, é claro]), foi pouco poético e beirou a bobice... com flores caindo e as pessoas dançando... Tipo assim: "a vida é bela e a morte é feia", "eu vou me amar e todos me amam", "nenhum sonho é impossível"... Enfim, achei o final simplista demais.
Tudo bem que o amor traz à vida, mas a maneira como a Marilyn e o cliente (le joli garçon) se enamoraram foi repentino demais!
Legal a volta da loja, de produtos para a morte passa para uma creperia ("Aux bons vivants"), mas não entendi o tal "crepe de cianeto"... Será que o sr. Michima gostava de vender produtos para a morte? Por que ele vendeu? Não entendi. Quando me pareceu que a família Tuvache tinha mudado de idéia, ele vai e vende um produto para a morte. Talvez porque aquele cliente queria mesmo morrer, ele sempre comprava coisas na loja... mas como saber ter essa certeza? Camaradagem do Sr. Michima?

Como disse, esperei muito da animação e me frustrei. :(


Nota: 5.

domingo, 14 de julho de 2013

Drive


Não dá pra ver, mas o motorista está com o palito de dentes na boca, constante no filme

Drive é um filme intrigante. Pelo menos foi assim comigo. A história é simples: um jovem rapaz (que não tem nome, quer dizer, em nenhum momento o nome dele é dito) trabalha como mecânico, dublê (sempre dirigindo carros) e como motorista de fuga em assaltos nas horas vagas. Até que ele se envolve numa trama sem saída... 

Hilária a cena em que ele oferece ao filho da vizinha um palito. Teria o personagem concedido ao menino uma condição de proximidade?

O filme tem uma estética interessante: poucos diálogos (o protagonista quase não fala), pausas longas, uma trilha sonora de músicas antigas bem bacanas, o áudio nos momentos de violência se acentua. O filme tem um tom de antigo, embora eu ache que ele se passe no presente, as roupas, os carros, os penteados imitam uma época passada. Embora o protagonista seja um exímio motorista, o filme não é de perseguição, cenas de explosões ou algo do gênero.

O intrigante é o protagonista: é um personagem calado, solitário e frio. Ele consegue estar numa perseguição de carros sem mudar a feição do seu rosto, que, aliás, é inexpressivo em todos os momentos. Acho que a única cena em que ele expressa alguma coisa na sua fisionomia é quando ele encontra o chefe da oficina onde ele trabalha morto, mas nada demais. E tudo muda quando ele começa a gostar de sua vizinha, uma jovem que tem um filho, e o seu marido está preso (mas depois ele é libertado), mas a única coisa que rola desse romance (porque parece que ela se sente atraída também) é um beijo no elevador, para, em seguida, ter uma cena de muita violência.
O motorista é capaz de espancar um cara até a morte ou martelar os dedos de um homem sem se abalar. 
A trama se desenvolve quando ele, para ajudar o marido da vizinha que é solto, se envolve numa rede de dinheiro e morte. Ele, para se ver livre e livrar a vizinha e o filho dela, "precisa" matar... porque nem o dinheiro ele quer.

a vizinha

Acompanhei críticas e comentários na Internet sobre esse filme e observei que muitas das discussões era sobre o dualismo: herói x anti-herói. Seria o motorista um herói, porque motivado pelo amor, colocou sua vida em risco para a salvar a "princesa" da história? Ou seria ele um clássico anti-herói, um cara "todo errado" mas que age pelo "bem"? Acho que ele era um cara, esquisito é verdade (um psicopata?), que se viu numa situação nova. Parece que uma brecha permitiu com ele tentasse se aproximar de alguém e isso cobraria um preço muito alto: continuar vivo ou morrer.


O filme faz referência ao escorpião, tanto no seu casaco que o acompanha do início ao fim do filme (presente nas cenas de violência) como naquela parábola do sapo e do escorpião que alguém faz referência no filme. A idéia é que a sua natureza - isolada, fria e violenta - estará sempre presente, e tentar sair dela, pode lhe render a morte. É como se fosse a sua maneira de lidar com o mundo. 
Na sequência de cenas onde ele persegue e joga o carro do seu inimigo pela ribanceira, ele usa uma máscara (aparentemente sem necessidade porque a vítima sequer o vê direito e ele nunca usa disfarce), me pergunto o porquê. Será que para se mostrar quem não é ou para afirmar quem ele é? Um homem sem face, inominável e oculto, aquele que esconde a sua verdadeira identidade. Ao final dessa sequência, ele praticamente se joga no mar para afogar o seu inimigo. Não tem limites, ele simplesmente se entrega aos seus impulsos.



SPOILER! 

Ao final, sinceramente acho que ele não sobreviveu...na prática, porque acho que ele seria perseguido pelos bandidos até ser morto. Ele matou os chefões, não iam deixar barato. De qualquer forma, a sensação que fica é que ele abandona tudo para trás, talvez porque ele tenha percebido que nada daquilo era significativo, não valeu a pena.


Nota: 7.

Link de uma das músicas de Drive: http://www.youtube.com/watch?v=3_4t3jUsiJk

sábado, 1 de junho de 2013

Indomável sonhadora (Beasts of the Southern Wild)


Com o título muito diferente do original (como sempre), Indomável Sonhadora fala de uma criança, Hushpuppy, que, para enfrentar sua rotina dura e sofrida, fantasia uma realidade cheia de aventuras, monstros e descobertas. De fato, todas as críticas das quais ouvi falar sobre a interpretação da pequena Quvenzhané Wallis, que tinha apenas 6 anos quando rodou o filme, são verdadeiras na minha opinião. É incrível a sua atuação! É muito impressionante: ela é viva, natural e muito impactante!


Hushpuppy vive num local conhecido como "Banheira", uma espécie de comunidade muito pobre que vive à beira de um grande lago. Sua mãe sumiu quando era bebê e seu pai é alcoólatra, vira e mexe tem uns ataques de raiva e trata a "chefa" (como ele se refere à Hushpuppy) como uma adulta, também é distante e displicente. Ele reforça de que devem viver ali, naquelas condições, para sempre e ensina Hushpuppy a encarar a rudeza da vida como um animal - através da força e do ocultamento das emoções, assim era digno de se viver. Talvez por isso, as várias cenas em que ela grita com ferocidade, para provar ao mundo a sua força. É uma criança destemida, não tem medo dos animais, do mar, dos fogos... Enxerga o seu mundo como uma grande entidade em que cada elemento, seja ele um pequeno animal ou um grande, como parte importante para o equilíbrio do Universo. Olha que filosófico!



A vida deles já é um drama, mas quando aquela comunidade inunda após uma tormenta e, especialmente, quando o pai dela fica doente, as coisas tomam outro rumo de tragicidade. 

Fiquei confusa porque algumas cenas não parecem ser a realidade, parecem refletir a imaginação de Hushpuppy, mas talvez isso não importasse (mesmo porque o limiar entre essas duas instâncias - ficção e realidade - é muito difícil de mensurar... Como podemos afirmar que o que o outro vê/sente/ouve é uma "mentira"? Complicado isso). Acho que o que importa é ver o modo pelo qual a criança interage no mundo e interpreta o mundo, e foi exatamente essa a "magia" do filme, porque a atuação da criança é excepcional.

Hushpuppy é uma criança e carece de carinho e colo, então constantemente ela imagina conversando com sua mãe, imagina o encontro com a sua mãe. A blusa da mãe se torna quase um amuleto que a protege e a acalma.
As cenas com as feras são muito representativas (esqueci o nome do animal... é parecido com o javali... Ah, bisão! Inclusive, ela conhece esses animais numa "aula" em que a professora mostra os bisões tatuados na perna. Muito interessante). Parece que a corrida dos animais até à Banheira representa a morte, a destruição; e quando eles chegam, ela os encara com muita força, de igual pra igual, e, ao perceberem  sua imponência, prestam reverência. É lindo!


É um filme de poucos diálogos, a criança narra grande parte do filme e de poucos sorrisos. Hushpuppy está na maior parte das vezes com um semblante preocupado e sério.
É um filme que nos faz pensar em como ressignificar os sofrimentos da vida.

Nota: 10.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Michael


Michael é um filme para poucos, trata-se de um tema tabu e muito angustiante. Michael é o nome do sequestrador que mantém um menino de 10 anos em cativeiro (não dá pra saber por quanto tempo, parece ser um tempo considerável) e o filme mostra a rotina desse sequestrador. Não tem cenas fortes, mas sugere coisas pesadas.

Michael

o menino sequestrado
É um homem que não levanta muitas suspeitas: trabalha, assiste televisão, fala com sua mãe pelo telefone, se encontra com a sua irmã, cumprimenta os vizinhos, (exceto o episódio de quando ele expulsa a colega de trabalho da casa dele numa explosão de raiva).
Acho que essa é a sacada do filme; primeiro, aborda um assunto que não se fala; depois que mostra um criminoso que escapa dos estereótipos de um criminoso, mostra que pessoas aparentemente "normais" podem cometer coisas assustadoras. Nos mostra que essa historinha de que existem pessoas do "bem" e do "mal" não existe, as pessoas não se dividem nessas classificações, ultrapassam-nas.


Michael é um sequestrador vazio, indiferente, organizado e asseado. Se veste bem, mantém a casa limpa e arrumada. O filme é muito lento e cru, não tem música de fundo, cenas apelativas, cenas de ação, nada. Tem poucos diálogos. É quase como "a vida como ela é". No caso de Michael, uma vida regrada, vazia, inssossa, sem energia, numa palavra: "entediante".

Michael é pouco sociável, a única tentiva é quando ele faz uma viagem com dois colegas para esquiarem, e é absolutamente patético. Ele não se diverte, não conversa, numa ocasião se recusa a sair com os colegas para assistir tv, tenta se envolver com uma mulher, mas fracassa.



Sua relação com a menino que mantém preso é de indiferença, mentira e impaciência. Ele passeia com o menino, mas mantém tudo sob controle, mas a maior parte do tempo, o menino fica no sótão e não se rebela, aceita as coisas como são.

O final é muito surpreendente! Não imaginava... Posso dizer que há uma grande reviravolta, que não é nada fácil. Há uma transgressão do limite da humanidade, só que por parte da criança. Parece que em situações-limite os seres humanos "precisam" agir de modo não-humano para suportarem o sofrimento e sobreviverem.


Nota: 8.

"sondando" possíveis vítimas
porta do sótão

Spoilers abaixo!

No velório de Michael, o sermão do padre é interessante. Ele fala do sentimento de perda que a mãe deveria estar sentindo, do quão jovem ele morreu e tudo que deixou de viver. Que injusto era aquilo tudo! Ao mesmo tempo, essas mesmas palavras mostram a ambiguidade da situação: esse sermão serviria para o menino sequestrado. Como será que a família da criança estava? A privação de liberdade matou o quê da infância do menino? São perguntas que, se houver respostas, certamente são incomensuravelmente dolorosas.
 

Confessions (Kokuhaku)

capa 1
capa 2 - bem legal
capa 3 - muito bom!
Confessions é um filme japonês e um dos melhores que fala sobre vingança que já assisti, se não o melhor. Diferentemente de Old Boy, que também é um filme sobre vingança, eu achei que em Confessions a vingança é proporcional ao mal gerado, em Old Boy não, a vingança é desproporcional, e isso faz toda a diferença, porque em Confessions eu "torci" pela vingança, tive até um sentimento de "fazer justiça"; em Old Boy a vingança é exagerada, é muito além do mal que foi feito.

É um filme muito cruel e pesado. Cruel mesmo. Mas sem cenas de violência explícita ou algo do gênero (até tem uma cena violenta, porém, definitivamente não é a cena mais forte do filme...). Então, como disse, é um filme que gira em torno de uma vingança engendrada por uma professora à seus alunos adolescentes. É isso mesmo.

o ideograma escrito no quadro significa "vida"
Yuko é uma professora que um dia, em sala de aula, anuncia duas coisas  sob o deboche dos alunos: aquele será seu último dia de aula (em que seus alunos comemoram) e, que descobriu que sua filha de quatro anos, chamada Manami, não morreu afogada acidentalmente como alegou a polícia, mas foi assassinada por dois dos seus alunos que ela sabe quem são e avisa que irá se vingar. Pânico.



A partir daí os fatos são colocados mostrando a rede de pessoas e acontecimentos, em ordem não-cronológica, revelando os detalhes da morte e da vingança sob a ótica dos envolvidos (por isso "confissões", os personagens principais confessam o seu íntimo e o filme é dividido em confissões).

Sangue no leite - essa imagem remete à uma das ardilosas "redenções forçadas" impostas por Yuko
A professora explora profundamente as fraquezas dos assassinos (que ela vai chamar de A e B) e vai manipular qualquer pessoa para que sua vingança seja a mais cruel e a mais dolorosa. O importante é que a vingança não é para matar os assassinos (quase todo filme do gênero é uma caçada para matar o assassino), mas sim, mantê-los vivos para sofrerem as consequências, se redimirem. Ela não tem planos mirabolantes e não usa de alta tecnologia para se vingar, é mais uma manipulação psicológica que varre para o ralo qualquer esperança de escaparem das consequências dos seus atos.
 
ápice do filme
As atuações, principalmente a dos dois meninos e a da professora, são excepcionais!
Outros pontos para discutir: o incômodo que a aluna (que se envolve com o A) sente ao perceber que os demais alunos se esquecem com facilidade do incidente, de como preferem viver o superficial em detrimento de lidarem com o difícil; de como o novo professor da turma é tão ingênuo que beira o ridículo e, apesar das ótimas intenções, inocentemente, sem saber, provoca sofrimento.


Spoilers daqui para baixo!

De fato, os dois meninos caem facilmente na trama armada por Yuko. Um, é mais resistente por ter a auto-estima mais elevada e ser um pequeno gênio, isso o faz se sentir superior às pessoas (o assassino A); o outro (o assassino B), mais frágil e vulnerável, foi duplamente vítima porque foi usado por A e porque participou do crime para ter um amigo (o A), e por "azar" é quem mata a criança (explico, o A foi quem planejou tudo e usou o B como cúmplice caso desse algo errado, mas o A era quem queria os "louros da vitória", era quem queria de fato ter matado a menina).


Cada menino, o A e o B, é marcado por histórias tristes; um, quer a atenção da mãe que o abandonou; o outro, quer ter amigos. Em essência, é essa a fragilidade dos dois e é exatamente onde Yuko atingirá sem piedade. E é nesse sentido que considero o filme pesado, porque os dois personagens (e quem estiver por perto) almejam nutrir sentimentos inocentes e puros - querer o amor da mãe e ter amigos é algo muito humano - que ao se fragmentarem fazem com que os personagens percam seu eixo da existência.


Vejo semelhanças nos três personagens: a perda da humanidade por causa da perda daquilo que os tornava humanos. Yuko diz no começo do filme que, quando Manami morreu, morreu também parte importante dela, assim como os meninos lutavam para manter um traço de humanidade buscando aquilo que os fizessem se sentir acolhidos e amados. Por fim, Yuko quer fazer justiça com as próprias mãos e destrói as esperanças dos meninos.

Nota: 10.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Amor (Amour)


Assim como outros filmes do diretor Michael Haneke, é um filme duro de se assistir, e logo no início do filme já sabemos que não veremos um "final feliz". O amor aqui não se trata de declarações melosas, é outra coisa. E gosto muito desse outro olhar, filmes de romances "cor-de-rosa" (casais bonitinhos, histórias que só acontecem em filmes) são chatos e muitas vezes irreais; o interessante é olharmos para outras manifestações desse sentimento tão desejado e falado por todos.

O filme se passa quase que totalmente num apartamento e centraliza no casal. As atuações dos dois estão incríveis! O olhar vazio e perdido de Anne é impressionante.

O filme trata de um casal de idosos por volta dos seus 80 anos que vive confortavelmente num apartamento em Paris. Anne sofre um derrame e o seu marido George é quem assume os cuidados e precisa readaptar a vida dos dois, pois aos poucos, Anne fica mais decrépita: fica paralisada de um lado do corpo, tem lapsos de memória, e por fim, já não consegue articular uma frase. Se torna totalmente depende, até das necessidades mais elementares, dos auxílios de George. A filha do casal é ausente e distante.


O filma narra fria e lentamente como a vida desse casal vai se tornando, e deixa claro como há amor e cuidado entre ambos. 

 (Daqui para baixo têm pequenos spoilers...)

George é extremamente calmo e paciente, cuida de Anne, apesar dos impropérios ditos por ela e uma única vez perde a paciência... e se lamenta depois. Ainda que seja uma atitude condenável, fico imaginando o quanto aquela agressão feriu o próprio George... Ele se encontrava numa situação-limite, sozinho, amava Anne e mesmo assim foi capaz de agredí-la.
 
Anne era professora de piano

O filme mostra as agruras da doença, as preocupações que cercam a vida das pessoas envolvidas com o adoecimento, as mudanças radicais no cotidiano, o distanciamento das pessoas (quando o aluno de Anne lhes envia uma carta dizendo estar muito triste com a situação dela e visivelmente Anne se decepciona com essa atitude; a filha que os visita com pouca frequência e não se envolve muito), pessoas que se aproximam (os vizinhos que ajudam nas compras e na limpeza do apartamento), o desconhecido (George não sabe o quê fazer em muitas situações), é uma jornada solitária...

A carta que George escreve, embora não se saiba para quem é endereçada, para mim, ele escreve para Anne, na sua incapacidade de falar e raciocinar e na sua despersonalização, George ainda conversa com Anne, nem que seja por carta. Ele ainda consegue conservar a imagem e a pessoa que Anne era antes da doença.


a filha do casal , Eva, e George
Por fim, é um filme que nos faz pensar na finitude da vida, na velhice, no adoecimento, na morte e no amor que perdura a isso tudo. Diante desse contexto de terminalidade da vida e do sofrimento, o filme quebra um paradigma e deixa uma pergunta inquietante: a morte é um acontecimento necessariamente terrível ou poderia se tornar um ato de amor?

O filme parece apontar para a segunda hipótese, e nos mostra isso com uma certa dose de frieza e sensibilidade. 

Nota: 9.


terça-feira, 23 de abril de 2013

Psicopata Americano (American Psycho)


Psicopata Americano é um filme que fala da obsessão pela imagem, não só a física mas a social também. O protagonista é Patrick Bateman (interpretado por Christian Bale em mais uma excelente atuação) um ricaço empresário de Wall Street que fica irritado pelos motivos mais banais e é capaz de matar e torturar pessoas. Podemos perceber que num ambiente sem valores humanos, cada detalhe banal dotado de significados que demonstrem poder, é decisivo para as relações. Aí, cartões de visita, a marca do terno, a melhor vista do apartamento e o restaurante que se frequenta podem dizer e determinar  como as pessoas são e como se relacionam, podem até se motivo para matar alguém.

Patrick Bateman tem uma preocupação excessiva com a sua imagem: usa uma série de cosméticos para a pele, faz uma série de exercícios físicos, massagens, bronzeamentos artificiais; tem obsessão pela beleza e pela limpeza. A cena da máscara é emblemática: insinua uma pessoa que vive sob uma máscara, mas que por trás não existe nada, é um vazio completo, e toda sorte de futilidades e banalidades ocupam o lugar. Ele tem uma imagem impecável - é bonito, usa os melhores ternos e as melhores gravatas. Pat tem um discurso bonito e politicamente correto, mas isso é só mais uma "casca", mais um artifício para manter uma imagem correta, e superficial. Nada mais.
Patrick é um personagem fantástico.


aqui com uma máscara de gelo para tirar as olheiras
nessa cena ele está transando com uma prostituta e se olhando no espelho
Todos os homens são iguais (no sentido de que todos são homogeneizados), exemplarmente demonstrado pelos seus cartões de visita que são todos iguais, apenas pequenos e ínfimos detalhes os diferenciam uns dos outros. Qualquer diferença considerada melhor é razão para Pat Bateman se enfurecer e se sentir confrontado. Ele simplesmente não pode ser inferior aos outros, ele deve ser o melhor.

Um dado muito interessante do filme em se tratando da indiferença de todos por todos é que facilmente as pessoas se confundem e trocam os nomes das pessoas por outras. Inclusive, Patrick é confundido várias vezes e numa dessas ele assume a identidade de um outro com muita tranquilidade. 


Sua noiva e sua amante são seres medíocres. Sua noiva é uma perua fútil e a amante vive dopada por uso de medicamentos...

Pat passa os dias fingindo que trabalha, discutindo qual é o melhor restaurante pra ir (inclusive é muito interessante ver como simplesmente ir a um determinado restaurante muito badalado [que esqueci o nome, começa com D] se torna símbolo de status e poder) e aos poucos começa a perder o controle sobre si. A sua onda de ira só parece passar quando maltrata ou mata alguém, e o pior, gosta disso, seu descontrole é demonstrado também quando imagina falando coisas assustadoras para os outros, coisas como xingamentos, confessando que gosta de matar moças, etc. Talvez na falta de referências sólidas, a busca por algo que o preencha se torna um problema. Usa drogas, tortura prostitutas e mata pessoas, com a mesma indiferença com que trata qualquer pessoa em qualquer situação. Mata suas vítimas inclusive no seu próprio apartamento enquanto explica os álbuns de música que tem em sua casa. As pessoas não significam nada para ele. Seu apartamento é ao mesmo tempo luxuoso e clean mas também comporta armas das mais variadas: machado, facas, serra elétrica e até uma pistola de pregos.



Pat tem muito dinheiro e poder, pode manipular e ter livre acesso para obter o que quiser, até mesmo quando confessa seus crimes para o advogado (que troca seu nome pelo de outra pessoa) este não lhe dá a mínima, se tiver que encobrir o caso, encobre, sem problemas; a sensação que fica é a de que ele (o advogado) quer se ver longe de qualquer problema, tipo assim: "Ok, você matou muitas pessoas. Dane-se, não quero problemas pra mim". Não se indigna, não se afeta, não se emociona, muito menos se discute qualquer coisa, a única preocupação é garantir a reserva do restaurante para mais tarde. E só. 

Patrick, mesmo sendo quem ele é, começa a se assustar em desejar matar as pessoas, fica sobressaltado com a reação do advogado: indiferença, nada.


A impressão que fiquei foi a de que, ao final, quando ele sai matando as pessoas, talvez tenha sido um surto que ele teve, acho difícil aquilo ter acontecido de fato, mas exemplifica bem o sentimento dele: matar a quem o incomodasse, o mínimo que fosse. E outra, ainda que ele fosse um monstro, à medida que tivesse dinheiro e poder, nada o impediria de fazer o que quisesse. Ele mata, confessa que matou e nada acontece, simplesmente as pessoas estão preocupadas com outras coisas mais importantes. É o caso do apartamento, onde ele mantinha diversos corpos mutilados, quando ele volta, o apartamento já tinha sido reformado e estava à venda, o importante aqui é não perder dinheiro.

Gostei muito do filme!
Alguma semelhança com os nossos tempos??

Nota: 10.